sábado, 14 de novembro de 2009

Mais um sonho

Esta noite sonhei que era dono de um pássaro. Bem, na verdade acho que pássara. Ela tinha acabado de ter filhotes - seis.

A pássara era despudoradamente linda. Se assemelhava a um periquito - que por sua vez é uma miniatura de arara -, porém era mais esguia. Sua plumagem era de um amarelo intenso e tão belo quanto ouro. Aliás, suas penas estavam tão limpas que faziam sua cor vibrar de um modo muito mais atraente que o ouro.

Ela ficava numa gaiola esquisita na cozinha da minha casa e, dentro dessa gaiola, havia uma caixinha de madeira, onde ficavam os filhotes. Eu tinha que tirá-los dali e levá-los para passear - dentro da gaiola. Eles precisavam de ar fresco, acho. E só podiam sair dois por vez.

Lá pelas tantas chegou a vez de levar a pássara para passear. Minha mãe achou conveniente abrir a gaiola nesse momento para deixá-la voar um pouco, talvez desestressar da intensa atividade materna de cuidar de seis filhotes recém nascidos. De início fiquei com receio da ideia, mas achei que seria uma boa. Portanto, fechei todas as portas e janelas da cozinha, para que a pássara não voasse pra longe de mim e eu a perdesse.

Acho que o receio de perder a pássara tenha origem no dia em que um periquito branco e preto que eu tinha escapou, não lembro como. Mas divago.

Enfim, fechei tudo. E a pássara amarela voava.

Só que, sabe-se lá como, as portas da cozinha abriam. E eu fechava novamente. Então eu olhava para as janelas e elas estavam abertas. Eu as tinha fechado! Então ia fechá-las novamente. Quando eu me virava, as duas portas da minha cozinha estavam novamente abertas. E eu tornava a fechá-las.

Desconfiei que minha mãe estava abrindo tudo. Por um momento cheguei a reclamar disso.

- Mãe, não abre! Assim a pássara vai fugir!

Minha mãe desdenhava de minha reclamação, mas com intenções de dizer que não haveria problemas se a pássara saísse da cozinha - o que faz sentido. Se saísse, provavelmente a pássara voltaria para cuidar de seus filhotes. Ademais, a desconfiança de que era minha mãe a abrir as portas e janelas cessou logo. Embora ela não estivesse no meu campo de visão quando eu ia fechar as janelas e portas, percebi que minha mãe não variava muito de posição. Além disso, seria necessário uma velocidade grande para abrir a porta e voltar para o seu lugar.

Mas e a pássara? Bom, por nenhum momento ela deixou a cozinha.

Em seguida acordei. E fiquei o dia inteiro refletindo, filosofando, tentando interpretar meu sonho.

A beleza vigorosa e indiscutível da pássara me fez enxergá-la como um sentimento bonito que eu tenho, algo que eu tenho de agradável para oferecer a quem me cerca - o quê, exatamente, não sei. Sei que, aparentemente, tenho medo de mostrar esse sentimento ao mundo - daí o receio de deixar a pássara ultrapassar os limites da cozinha.

Vi o aparente desinteresse de minha mãe como experiência, puramente. Ela sabia que deixar a pássara - sentimento - aparecer para o mundo não seria uma má ideia. Eu definitivamente não perderia com isso, e a pássara não sumiria para sempre.

Só fiquei na dúvida quanto à prole da pássara - que, por sinal, não apareceram mais no sonho depois que a pássara deixou a gaiola. Talvez sejam os frutos do sentimento ou do algo bom que eu tenho a oferecer para o mundo. Mas intriga-me o número - seis. E intriga-me mais ainda o fato de eles só deixarem o ninho de dois em dois.

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